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Anvisa avança no cânhamo, mas trava no autocultivo medicinal e uso adulto

Em 28 de janeiro de 2026, a Anvisa aprovou um pacote regulatório para produção de derivados de maconha para fins medicinais, limitado ao cultivo de variedades com THC de até 0,3%. [A decisão vem na esteira de uma cobrança direta do STJ, que validou o cultivo por empresas dentro desse recorte e impôs prazo para regulamentação, depois prorrogado até 31 de março de 2026. Este texto reconhece o avanço, mas critica o desenho mínimo e aponta o que falta para virar política de saúde.

Após pressão do STJ, a Anvisa abriu regras para cultivo restrito (THC ≤ 0,3%). O passo é real, mas curto: não enfrenta o autocultivo medicinal nem trata uso adulto como tema de saúde pública.

O que aconteceu, de forma objetiva

A Anvisa aprovou regras para organizar a cadeia de produção com foco em rastreabilidade e controle, restringindo a produção ao cultivo com THC até 0,3%, com exigência de análise laboratorial por lote e com insumos vinculados a regras do Ministério da Agricultura (cultivares registradas).
Esse desenho atende ao enquadramento estabelecido pelo STJ, que tratou do tema como cânhamo industrial (variedades com baixo teor de THC), para fins exclusivamente medicinais e farmacêuticos.

Avanços que merecem ser registrados

Tem coisa que muda, sim – e não é pouca para quem viveu o “limbo regulatório”:

  • Sai do improviso: há um marco que permite planejar pesquisa, investimento e produção dentro de requisitos sanitários.
  • Gera previsibilidade: o recorte de THC e as exigências de controle dão um roteiro (mesmo que rígido) para quem quer operar dentro da lei.

Reconhecer isso é importante porque política pública se constrói com degraus. O problema é quando o degrau vira teto.

O empurrão do STJ e o “mínimo necessário” como política

Aqui está a tensão central: a regulação não nasce de um pacto de saúde pública; nasce de uma determinação judicial.

Em novembro de 2024, o STJ validou a possibilidade de autorização sanitária para cultivo por pessoas jurídicas dentro do recorte do cânhamo industrial e deu prazo para regulamentar. Em novembro de 2025, prorrogou o prazo final para 31/03/2026.
Quando a régua é “cumprir prazo”, a tendência é sair norma com cara de checklist – suficiente para encerrar a cobrança institucional, insuficiente para resolver o drama social.

O buraco do autocultivo medicinal: saúde que vira privilégio

O pacote aprovado não resolve o principal gargalo da maconha medicinal no Brasil: o autocultivo como estratégia de cuidado.

Na prática, sem um caminho administrativo claro para o autocultivo medicinal, o país mantém um modelo em que o acesso depende de quem consegue pagar, esperar, importar, ou judicializar. Isso aprofunda desigualdade: a mesma planta vira “tratamento” para alguns e “suspeita” para outros.
E, do ponto de vista de saúde, é irracional: autonomia e continuidade do cuidado são fatores de proteção, não de punição.

Uso adulto fora do debate: um erro sanitário, não só político

Outra ausência gritante: uso adulto continua fora do campo da saúde e preso ao campo do medo.

É aqui que as provocações de Carl Hart ajudam a desmontar o senso comum. Em sua obra voltada ao grande público, Hart defende que o maior dano associado às drogas frequentemente decorre da ilegalidade, não do uso em si, e que adultos deveriam poder fazer escolhas com informação, regulação e cuidado em vez de punição.
A lógica é simples: clandestinidade não protege ninguém. Ela impede controle de qualidade, empurra práticas para o silêncio e faz muita gente evitar ajuda por medo de julgamento ou repressão.

Regulação do uso adulto passa pela Saúde: SUS já tem trilha pronta

Se a sociedade decide tratar uso de substâncias como tema de saúde, o eixo coordenador precisa ser o Ministério da Saúde, com programas públicos e rede de cuidado. O SUS já faz isso em áreas próximas:

  • No tabaco, existe um programa nacional que articula rede de tratamento no SUS, ações educativas e medidas de proteção coletiva.
  • Na atenção psicossocial, os CAPS AD são pontos de cuidado para situações relacionadas ao uso prejudicial de álcool e outras drogas, com modalidades que podem funcionar 24h em municípios maiores. [6]

A discussão de uso adulto de maconha, quando colocada nesse trilho, muda de pergunta: sai “como punir?” e vira “como reduzir danos, acolher, informar e intervir quando houver sofrimento?”.

Isso não é “liberou geral”. É o oposto: é controle real, com parâmetros públicos, educação honesta, prevenção, cuidado e responsabilização – sem terceirizar tudo para a polícia.

O que falta para virar política pública de verdade

Reconhecer avanços não impede a crítica. O próximo passo precisa ser mais corajoso e mais coerente com saúde:

  1. Criar via administrativa para autocultivo medicinal, com critérios proporcionais e foco em cuidado.
  2. Abrir o debate do uso adulto como política de saúde, com regulação, controle de qualidade, informação e portas no SUS para quem precisar.
  3. Evitar reserva de mercado travestida de “segurança sanitária”: regra que só serve para poucos não é política de saúde, é filtro social.

O Observatório da Maconha vai seguir acompanhando a implementação dessas normas e a disputa política em torno do autocultivo e do uso adulto como tema de saúde.
Se você atua em associação, saúde, direito, pesquisa ou redução de danos, envie contribuições, relatos e documentos para fortalecer a análise e a incidência pública.

Autor

  • Felipe Matos

    Advogado Antiproibicionista, percussionista, desenvolvedor web, anarco-comunista!

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